NOSSA HISTÓRIA

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SÃO ROQUE DE MINAS: HISTÓRIA, MEMÓRIA E IDENTIDADE NO CORAÇÃO DA CANASTRA

Localizado em uma das regiões mais emblemáticas de Minas Gerais, São Roque de Minas construiu sua história entre as montanhas da Serra da Canastra, as águas do Rio São Francisco e o trabalho de diferentes povos e gerações.

A formação do município está relacionada à ocupação do interior mineiro, à religiosidade de seus primeiros moradores, ao desenvolvimento da atividade rural e às transformações administrativas ocorridas ao longo dos séculos XIX e XX. Essa trajetória permanece viva no patrimônio, nas tradições, nas paisagens e na identidade da população são-roquense.

Os primeiros habitantes e a ocupação do território

Registros históricos locais apontam que a região onde atualmente se encontra São Roque de Minas foi habitada por povos indígenas identificados como Cataguases. Com o avanço das expedições coloniais pelo interior de Minas Gerais, essas populações sofreram violentos processos de expulsão e extermínio.

Posteriormente, as terras próximas às cabeceiras do Rio São Francisco tornaram-se refúgio para negros escravizados que fugiam de outras localidades. Nessas áreas foram organizadas comunidades quilombolas, que sobreviviam por meio da agricultura, da pesca e da caça e resistiram durante anos às ações de repressão promovidas pelas autoridades coloniais.

A partir de meados do século XVIII, a região passou a receber agricultores, criadores de animais, mestiços e famílias vindas de centros mineradores vizinhos que enfrentavam um período de decadência. Esse movimento contribuiu para a ocupação mais permanente do território e para a formação das primeiras comunidades rurais.

A formação do povoado de São Roque

A origem do povoado está diretamente ligada à fé e à religiosidade de seus moradores. Segundo os registros históricos locais, em 1762 foi construída uma capela dedicada a São Roque, sob a liderança de Manoel Marques de Carvalho, tradicionalmente reconhecido como fundador do povoado.

A capela foi erguida nas terras de sua fazenda, em uma região posteriormente conhecida como Capela Velha. Ao redor do templo começaram a surgir moradias, propriedades rurais e atividades comerciais, dando origem ao núcleo populacional que recebeu o nome de São Roque.

Posteriormente, a fazenda foi adquirida por Belarmino Rodrigues de Melo. Em 1858, ele doou parte das terras para a constituição do patrimônio da localidade.

No mesmo ano, a Lei Provincial nº 906, de 8 de junho de 1858, elevou São Roque à categoria de freguesia e estabeleceu seus limites, permanecendo o território vinculado ao Município de Piumhi.

Do distrito à criação do município

Em 14 de setembro de 1891, São Roque foi organizado como distrito pertencente ao Município de Piumhi. Durante as décadas seguintes, a localidade permaneceu administrativamente vinculada ao município vizinho.

A autonomia municipal foi conquistada em 17 de dezembro de 1938. Por meio do Decreto-Lei Estadual nº 148, o Distrito de São Roque foi desmembrado de Piumhi e elevado à categoria de município, recebendo a denominação de Guia Lopes.

A nova organização territorial entrou em vigor em 1º de janeiro de 1939. De acordo com os registros da Câmara Municipal, nessa mesma data ocorreu a instalação solene do Município de Guia Lopes. Inicialmente, sua estrutura territorial era formada pelos distritos de Guia Lopes e Serra da Canastra.

O nome Guia Lopes foi escolhido em homenagem a José Francisco Lopes, filho ilustre da região que teve participação de destaque na Guerra do Paraguai.

José Francisco Lopes, o Guia Lopes

José Francisco Lopes nasceu em 26 de fevereiro de 1811, na Fazenda Tamanca, em território que atualmente pertence a São Roque de Minas.

Ainda jovem, mudou-se com sua família para a região que hoje integra o Estado de Mato Grosso do Sul. Por seu profundo conhecimento dos caminhos, rios e características daquele território, tornou-se conhecido como Guia Lopes.

Durante a Guerra do Paraguai, integrou as forças brasileiras e exerceu papel decisivo na condução das tropas durante o episódio conhecido como Retirada da Laguna, em 1867. Em meio à fome, às doenças, aos ataques inimigos e às dificuldades do terreno, seu conhecimento ajudou os soldados brasileiros a alcançar uma região mais segura.

Guia Lopes morreu em 27 de maio de 1867, durante a retirada. Sua atuação foi registrada pelo escritor e militar Alfredo d’Escragnolle Taunay, o Visconde de Taunay, e passou a integrar a memória histórica do Exército Brasileiro e do país.

Em São Roque de Minas, sua memória permanece preservada no nome de ruas, instituições e espaços públicos. Na Praça da Matriz encontra-se o Altar da Pátria, monumento erguido em 1967, durante as comemorações do centenário da Retirada da Laguna.

A reorganização territorial

Em 31 de dezembro de 1943, o Decreto-Lei Estadual nº 1.058 reorganizou a divisão territorial de Minas Gerais. O Município de Guia Lopes passou a compreender os distritos de Guia Lopes, Serra da Canastra e Vargem Bonita, este último formado com território desmembrado do distrito-sede.

Uma nova reorganização ocorreu em 12 de dezembro de 1953, com a publicação da Lei Estadual nº 1.039. A norma elevou Vargem Bonita à categoria de município e incluiu São José do Barreiro como distrito integrante de Guia Lopes.

Os registros históricos municipais indicam que o Distrito de São José do Barreiro foi solenemente instalado em 13 de junho de 1954.

O retorno ao nome São Roque de Minas

No início da década de 1960, a população foi consultada sobre a denominação do município. Após plebiscito popular, foi decidido o retorno ao nome histórico de São Roque.

A mudança foi oficializada pela Lei Estadual nº 2.764, de 30 de dezembro de 1962. A partir de então, o Município de Guia Lopes passou a se chamar São Roque de Minas, preservando a referência ao padroeiro que deu origem ao antigo povoado e diferenciando-se do Município de São Roque, no Estado de São Paulo.

A emancipação municipal, portanto, ocorreu em 17 de dezembro de 1938. O ano de 1962 marca a alteração oficial da denominação de Guia Lopes para São Roque de Minas.

A Serra da Canastra e o Rio São Francisco

A história de São Roque de Minas também está profundamente ligada à Serra da Canastra e ao Rio São Francisco.

Criado em 3 de abril de 1972, o Parque Nacional da Serra da Canastra tem como um de seus principais objetivos proteger importantes áreas de cerrado, nascentes, cursos d’água e espécies da fauna e da flora brasileiras.

No território do parque encontra-se a nascente histórica do Rio São Francisco, um dos rios mais importantes do Brasil. Em seu percurso inicial, suas águas formam a Cachoeira Casca d’Anta, primeira grande queda do rio, com aproximadamente 186 metros de altura.

A nascente histórica, a Casca d’Anta, os chapadões, os paredões rochosos, as cachoeiras e as paisagens naturais transformaram São Roque de Minas em uma importante referência para o turismo ecológico, rural e de aventura.

O Queijo Canastra e a cultura são-roquense

A identidade de São Roque de Minas também foi construída pelo trabalho das famílias rurais, pela produção agropecuária e pelos conhecimentos transmitidos de geração em geração.

Entre os maiores símbolos da região está o Queijo Minas Artesanal da Canastra. Seu modo de produção reúne conhecimentos relacionados ao manejo do gado, ao leite cru, ao pingo, à maturação e às condições próprias do território da Serra da Canastra.

Em 2008, o Modo Artesanal de Fazer Queijo de Minas, que contempla a região da Serra da Canastra, foi registrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional como Patrimônio Cultural do Brasil. Em 2024, esse saber também passou a integrar a Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da Unesco.

Além do queijo, a cultura local é preservada nas festas religiosas, nas folias, nos congados, na culinária, nos causos, nas lendas, no artesanato, na música e nas formas tradicionais de trabalho e convivência.

Uma história preservada por gerações

São Roque de Minas nasceu da união entre território, fé, trabalho e comunidade. Das primeiras ocupações às margens do Rio São Francisco à formação do povoado ao redor da capela de São Roque; da emancipação como Guia Lopes ao retorno de sua denominação histórica; da vida rural à projeção nacional da Serra da Canastra e de seu queijo, cada período contribuiu para a construção da identidade municipal.

Preservar essa história é reconhecer a participação dos povos indígenas, das comunidades quilombolas, das famílias pioneiras, dos trabalhadores rurais, dos produtores de queijo e de todos os cidadãos que ajudaram a construir o município.

Hoje, São Roque de Minas segue avançando sem perder suas raízes, valorizando seu patrimônio histórico, cultural e ambiental e mantendo viva a identidade de um povo que se orgulha de viver no coração da Serra da Canastra.

  • A Então cidade de Guia Lopes em 01-01-1939

 

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